quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Si(e)nergia

É com muito carinho e admiração enorme, que deixo esse presente, enviado por Diego.
Primeiro texto do acordo por nós avençado quanto à
Sinergia (entre o "contandocanto" e o "dequatro").


Obrigada Diego, por dividir o olhar, por fazer parte do "meu".

Que esses olhares/textos/pessoas, façam parte daqui sempre!



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Aos miseráveis membros do Clube do Vinho


Taninos selvagens estalam em minha torpe boca, revelando a composição do vinho. Aguça o paladar, diz o velho. Não entende nada esse presunçoso. Aveludado na ponta, revela-se tímido ao fundo da língua. Baixa acidez, diz o velho. Acidez? Indago-lhe. Para mim isso mais parece vinho de mesa. Cala-te, neófito, tens muito a aprender. Tome a água, limpe sua sensibilidade. Agora tome este, que é mais rascante. Sorvo o líquido rubro, escarlate. Parece sangue, diz o jovem. E o que você entende disto? Diga-me, o que pensas sobre este? Diria que é recente, potente como um touro, no entanto desce como suco. Bom, diz o velho. Estás a aprender. Para enfezá-lo, digo que a safra é de 2003 e que se trata de um Rioja Crianza, dois anos no barril de carvalho. Ora esta, esbraveja o velho, estás me saindo um bom velhaco. Não preciso ler enciclopédias para isto velho, nasci com o dom. Muito bem, agora mais este. Já impaciente, afugento a água e sirvo-me da próxima iguaria. E agora, o que me diz? Este vinho, digo, lembra-me minha jovem amante. É mesmo? E a razão disto? É macio ao primeiro contato, mas cobra atenção ao descer, mostrando-se ácido, deixa-me zonzo, lacrimeja-me os olhos. Entendo, diz o velho lascivo. Diga-me, então acreditas que um vinho possa ser comparado a uma mulher? Claro que sim, aliás, é a minha escolha na falta delas. Podem ser combinados com certos elementos, no entanto esta escolha é extremamente difícil. Os que valem a pena são caros, por certo. Embriagam-nos facilmente e, no dia seguinte, demandam parcimônia, na forma de atenção. Não entendo, diz o velho. Não me diga que não tem ressaca? Ah, excita-se o velho. Além disto, cada espécime é diferente, variando no tipo de uva, terroir, safra e clima, produtor...Da mesma forma como cada mulher é uma história, suas curvas, suas cicatrizes, seus desejos, suas taras. Entretanto, pondera o velho, o vinho torna-se melhor com a passagem do tempo, enquanto que as mulheres murcham e se alquebram. Aí é que se engana, tolo senil. As mulheres experientes podem ensinar muito a um jovem como eu, além de já estarem calejadas e não requisitarem muito em troca, além do sexo, é claro. As jovens, por sua vez, demandam atenção, seja em forma de dinheiro, carinho, o que seja, como o faz um vinho de baixa estirpe, que custa em ser aceito pelo paladar aguçado. O velho, já febril, emborca a taça de vinho e escuta atentamente. Penso, cá com meus botões, o que é mais patético do que um velho que, tal como um vinho, não amadureceu, vivenciou situações, chorou amores e agradou mulheres?

5 comentários:

DF disse...

Lara,

eu que agradeço a oportunidade e reitero as desculpas pela demora!

Beijo!

Cineasta 81 disse...

Cantei

maretzzz disse...

lindu seo canto!!rs*
bjO

Valdoir Wathier (vulgo Delon) disse...

enântico!

Roberto Leonan disse...

Disse muito, me abateu pouco.

Há aqui uma ponta de desacordo, mas a fala miúda desse jovem vale as poucas palavras que se seguem.

Não sou de um total conservadorismo, na verdade creio pouco em um padrão.

E o que seriam as mulheres?

Não, por mim, padrão.

Mulheres são o que não se pode escrever, o que não se pode comparar.
Mulher não é vinho.
Mas o vinho é o que tempera a mulher.