segunda-feira, 20 de julho de 2009

Depois de ter você

Ela gostava de guardar no bolso imenso do casaco amarelo, todas as coisas do mundo.
Guardava cores, o cheiro dos amigos de infância, o vento-bagunça-cabelo, o vento-levanta-vestido, o cheiro de chuva da avó materna, o cheiro de domingo de sol do avô. As previsões catastróficas da melhor amiga virginiana, os beijos que sentiu, o cheiro de cada lugar que viveu, guardou olhos-sorrindo, os conselhos da tia-prima-segunda da vizinha da frente, guardou os que sorriam pra ela, os que foram e prometeram voltar, os que voltaram, os que não...

Um dia encontrou o mar... se olharam, imensos!
Entregou o que tinha.
Tirou o casaco, se desfez do botão colorido e sacudiu devagar pra se despedir de tudo.
Ficou ali, olhando o mar abraçar teus dias sem pressa, fechava e abria os olhos, sentia o vento, respirava fundo, aliviada, todo silêncio do mundo e ela.

Menina que tanto guardou do mundo, agora derramava mar dos olhos.

4 comentários:

Luciana Freitas disse...

nossa, que lindo, isso...

Thigs disse...

Vou pegar pra mim tá?

Tarlei Melo disse...

"Menina que tanto guardou do mundo, agora derramava mar dos olhos."

Algumas vezes encontramos frases perfeitas. Essa é uma delas. Cada palavra está no lugar que sempre deveriam ter estado. Acho que sempre estiveram assim, e você finalmente as descobriu.

THE POEM HAS BROKEN disse...

E só sentia aquele gosto salgado despencando dos olhos e encharcando a boca.