sábado, 17 de outubro de 2009

Estudo sobre a solidão II.

- O que acho engraçado nesses vinhos bons, é que quando o gosto vem, acaba! Quando a gente começa a sentir o gosto, passa!
- Talvez por isso sejam bons.
- É, talvez.


Acho que ele deixou o vinho porque no fundo, sabia que um dia, nele, ela o esqueceria.
Não que o vinho apagaria o cheiro, as transas, os dias contados e a bagunça toda deixada dentro dela, não! O vinho era compania agradável, o bastante para que ela o perdoasse e era só isso que ela queria.
Telefone não tocava, nem uma mensagem de texto, nem secretária eletrônica, campainha, na-da.
Era ela, uma taça de vinho do porto e cigarros, muitos, dois maços. Voltou a fumar mesmo não querendo amarelar os dentes, nem manter o hálito nicotinado e aquela tosse rouca. Ela parou porque acreditava que a fumaça afastava os outros, mas estava sozinha e a fumaça não afastaria ninguém, não agora.
Da janela, via duas estrelas, duas estrelas de brilho enorme, dessas que a gente parece enxergar as cinco pontas à olho nu.
Mais um gole.
Seu paladar estava acostumado a vinhos baratos, daqueles que bebia com os amigos na adolescência, em copos plásticos que conseguiam na mesma adega em que compravam a garrafa.
Descobriu aos 15, quando foi abandonada pelo primeiro namoradinho, a importância de beber um vinho barato. Os namoradinhos iam e no outro dia, qualquer analgésico tirava a dor de cabeça.
Mas dessa vez, bebia "Dow's Port" em taça, sozinha na cama, ouvindo a festa de sexta-feira do apartamento ao lado. Era diferente e ela sabia. Voltava o olhar pro vinho e como quem procura respostas, ali ficava.
Ela já tinha se perdido antes. Quando esperou ouvir "eu te amo" depois da primeira transa, quando viu o mar  e teve a impressão de estar diante do infinito ou nas tantas vezes em que foi assistir um espetáculo de dança, que o os corpos nus se enrroscavam de um jeito tão forte, tão intenso que parecia sufocar e num passo delicado de um dos bailarinos, tudo se desfazia, tudo se fazia paz.

Era assim, exatamente assim que assistia sua vida agora. A vida se enrroscava desajeitada e não via a hora de ser paz. Ela queria ver o bailarino leve organizar a cena, queria ser mar.

"Beber vinho sozinha é tão corajoso!", pensou enquanto acendia outro cigarro.

6 comentários:

Ian Lehmann disse...

só no final eu respirei...

Emely disse...

nessa hora, minha taça ja esta vazia.

Dani disse...

Oi, primeira vez que passo por aqui. Gostei demais das suas postagens, parabéns.
Aprendi o caminho e pretendo voltar sempre.

Thiago disse...

E para todo o sempre ...
... Vinho aqui ascender um cigarro.

Luciana Freitas disse...

Que linda dança...

AMe disse...

tim